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Inimigo

 
Será que algum dia você já parou para pensar qual é o pior inimigo de uma mulher? Talvez você me diga: já sei! É o Tempo. Ou pense melhor e exclame: Não, não, é a Velhice! Pois eu lhe direi: nada disso caro amigo, o pior inimigo de uma mulher é o ESPELHO.

Isso mesmo, o ESPELHO! Mas, você retrucará que, ao longo da História, nas lendas e contos, o espelho aparece sempre como um importante objeto de adoração feminina e por vezes, até como um cúmplice inseparável (lembra da madrasta de Branca-de-Neve ?). Pois é, o espelho traveste-se de “amigo”, mas, em sua verdadeira essência, é um inimigo em potencial.

Ah, a vaidade! Quem será que “implantou” a vaidade na alma das mulheres? Por que, para nós, isso é tão importante, principalmente nos tempos de hoje?

Pois eu afirmo, sem sombra de dúvida, de que a vaidade instalou-se definitivamente na alma feminina quando a mulher olhou-se, pela primeira vez, no espelho. Imagine a cena: a mulher, que antes se via somente nas águas de um rio ou lago (e de forma imprecisa, pois a água, por mais parada que esteja sempre tem leves oscilações, ou pode até estar barrenta), de repente, vê-se refletida neste objeto maravilhoso chamado ESPELHO. Meu Deus, que precisão! Nele ela pode apreciar-se de vários ângulos, mais de perto (ou nem tanto), só o rosto ou de corpo inteiro! Nele, a mulher observa plenamente sua beleza, ou seu declínio…E a partir desse momento, o espelho tornou-se nosso escravo fiel, mas ao mesmo tempo, nosso senhor absoluto.

Antes, a mulher sabia que era bela (ou não), pelo que diziam dela ou para ela, e sendo assim, dependia sempre da opinião (nem sempre confiável) das outras pessoas. Mas também tinha um lado positivo: ela poderia não acreditar em tudo que lhe dissessem, e se ela acreditasse ser bonita, tudo estava bem (algo como, por exemplo, o “efeito placebo”). Mas, com o advento do espelho, tudo ficou diferente! Agora não poderia haver qualquer dúvida: ou sou bela ou não sou! A realidade nua e crua, já que o espelho não mente!

E assim, acabou-se a ilusão. O espelho instalou-se definitivamente na vida das mulheres, sem possibilidade de fuga (a menos, é claro, que você vá morar numa ilha deserta, ou numa tribo de índios completamente isolada, perdida na Floresta Amazônica).

O espelho parece inofensivo. Você o vê como um objeto prático e utilitário, um item indispensável em seu dia-a-dia. Mas o que só o seu psicólogo ou terapeuta explica, são os profundos vínculos emocionais que a ligam a seu espelho.

Você acorda cedo, depois de uma boa noite de sono – e talvez, de sexo -, bem humorada e feliz, sentindo-se linda (por dentro e por fora). Mas é só até você olhar-se no espelho do banheiro: “Por Deus! Quem é esta?! Não é possível… Não sou eu!” Você vira repentinamente de costas, sem querer se olhar. E o espelho lá, impassível, sem tugir nem mugir. A raiva começa a ferver dentro de você. “Mas eu não estou me reconhecendo! De quem são esses olhos inchados, esse cabelo que mais parece uma vassoura, essa pele ressecada? Eu não estou me sentindo assim! Eu sou linda!”

Devagar, você vira novamente de frente para o espelho. E lá está: a imagem não mente. Você sente-se de um jeito, mas o espelho afirma-lhe o contrário. Nesse momento, a raiva já amainou, e se você não chegou ao extremo de quebrar o espelho jogando-o porta afora, a dura realidade começa a impor-se, e você trata de correr atrás da beleza perdida. Nada que uma boa ducha, um secador, maquiagem e aquela roupa nova não resolvam.

Quer ver outro exemplo? Você sai para fazer compras, toda contente (é sábado, e o marido liberou o cartão de crédito), entra em uma grande loja de departamentos, vai para o setor feminino e vê aquelas roupas lindas e modernas. Avidamente, você separa umas três calças, cinco blusas e duas saias. Entra (ainda feliz) no provador e então lá está ele, seu pior inimigo, o crítico mais insuportável da face da Terra! Tudo o que você experimenta (e que na “arara” parecia perfeito para você) não lhe cai bem; ou fica muito apertado, ou sem caimento, ou simplesmente não entra em seu corpo.

Oh, desespero! Humilhada, você entrega as roupas para a vendedora e, com um sorriso amarelo, recomeça sua busca, pegando os números maiores. Mas e a sua auto-estima, como é que fica?

Não há como escapar. O espelho está aí, em nossas vidas, em todos os lugares, em casa, no carro, nos banheiros, nas lojas, nas nossas bolsas. Ele nos persegue. Mas como tudo neste mundo é relativo, podemos transformar o inimigo em amigo. É só não sermos críticas demais com nós mesmas, é só não darmos tanta importância ao que o espelho nos diz. Afinal, a beleza também é relativa, ela depende da “cabeça” de quem vê.

Brinque mais na frente de seu espelho, sorria mais. Tenho certeza de que ele refletirá a sua verdadeira beleza.

 

Marialini G. C. Bertolini

 


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