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Persona Non Grata

Arrumou com cuidado o lápis, o batom e o rímel na pedra da pia do banheiro. Depois pegou a base e o blush – bastaria um pouco para colorir as faces cinzentas e apagar as olheiras permanentes. Faltava a sombra, de cor neutra, para consertar as pálpebras caídas, e o pó de arroz – compacto, para disfarçar qualquer mancha.

  Antes de começar, observou longamente o próprio rosto no espelho, como um objeto que não lhe pertencia, um objeto de estudo – melhor seria se pudesse rodá-lo nas mãos, como Hamlet faz com a caveira. A análise deveria ser  rigorosa para não deixar escapar nenhuma imperfeição. Sabia disso, mas não teve ânimo para contar as rugas. Sentiu-as com as pontas dos dedos, localizando as mais profundas. Evitou olhar-se nos olhos, faria de conta que maquiava outra pessoa. Começou pela base, espalhando uma camada fina da testa ao pescoço. Cobriu tudo com o pó de arroz e examinou o resultado: sim, ainda era possível disfarçar muita coisa. Com o lápis preto traçou as linhas do cílio, alongando um pouco o formato do olho. Depois esticou a pálpebra e esfumaçou a sombra na pele mole. (É incrível, quando envelhecemos, além de ficar mole, a pele também não obedece ao toque… custa a voltar ao lugar) Por último, o rímel, escovando os pelos para cima (Quantas coisas aprendi, absolutamente sem querer, nas revistas femininas do dentista, do médico, do cabeleireiro… pequenos truques que julgava tão inúteis, agora podem me salvar).

  O mais difícil deixara para o final – o contorno dos lábios, que deveriam ser carnudos. Os dela eram bem mais finos agora, indefinidos e cravejados de pequenas rugas finas que subiam em direção ao nariz ou desciam para o queixo. A mão firme desenhou uma linha grossa com o lápis labial de tom escuro em torno da boca – isso evitaria que o batom escorresse, preenchendo os sulcos da pele e provocando aquele aspecto borrado. Um pouco de pó sobre os lábios e só então o batom.

  Com o disfarce da maquiagem, esperava escapar mais uma vez à revista implacável. Por quanto tempo? Faltara às últimas convocações, carregava um cartão quase em branco, mas estava esperançosa. Afinal, o problema nem era seu corpo, esguio e alto, dava para disfarçar qualquer imperfeição com as roupas certas. Julgava não ser preciso, pelo menos por uns tempos, aspirar alguma gordura fora do lugar ou preencher vazios dos membros envelhecidos.

  O fato é que não queria submeter-se às regras, para ela absolutamente ditatoriais: a partir dos 30, 40 anos, era obrigatória a cirurgia plástica: primeiro a facial; as outras se seguiam conforme a necessidade e a força da gravidade – os seios, os glúteos, os braços, a panturrilha. A cor da pele havia deixado de ser problema, aceitavam todas as variações; importava agora é que ninguém fosse velho ou feio, desagradável ao olhar, à paisagem, ao cenário. Importavam as linhas, o desenho, as formas, o perfil – nada de pesos para baixo.

  Havia sim, os rebeldes, aqueles que se insurgiam como ela e não se submetiam facilmente às normas da Sociedade do Bem Estar e da Beleza. Eram os que usavam todos os disfarces possíveis para escapar ao exame minucioso, realizado a cada ano, religiosamente. Porque era isso mesmo, uma verdadeira religião seguir a “Norma da Saúde e Beleza Eternas”; as pessoas adoravam poder parecer mais jovens e mais bonitas, mesmo ao preço de ficarem todas iguais: pele, boca, olhos, pescoço, tudo esticado e liso como plástico maleável. Não ela (como era gostoso mexer no braço enrugado de minha avó, mole, solto… seguir seus olhos ainda bem brilhantes em meio às rugas, sentir sua mão de dedos cheios de nós me acariciando a face… pentear seus cabelos brancos e ralos… quero ter isso em mim, não é um direito do ser humano poder envelhecer? Quando é que começou essa campanha ridícula e intolerável da beleza eterna? Quando extirparam velhice? Foi tão rápido que ninguém notou!).

  Afastou-se um pouco para ver o trabalho terminado. Pareceu-lhe muito bom, conseguira disfarçar os traços de “cansaço e envelhecimento”. A confirmação do sucesso viria mesmo nas ruas. E veio logo, assim que saiu de casa e foi abordada pelo rapaz de uniforme negro:

  Senhora, como é possível? Está completamente fora do padrão… me passe o cartão de identificação, devo verificar…não está preenchido? Por quê? Há vários anos a senhora não é examinada… Mas sabe que não há desculpas para negligência e desleixo nessa sociedade. Será levada imediatamente ao Centro de Remodelamento… Como? Não aceita? E por que não? Com certeza sabe das consequências? …Então não há alternativa… Aplique-se a lei. Pelotão da Limpeza, pode deletar!

Liana E. B. Silva Teles – 24/3/2006