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Sorvete de goiaba e bala “Cheeta”, Lembranças de Marília

 

Aperto a tecla “Arquivo” de meu computador pessoal intransferível, processa-se a memória, saltam as imagens claras e brilhantes como na tela do mais moderno micro. Com uma vantagem: vem todas acompanhadas de cheiro e sabor, cor e som. Como o sorvete de goiaba do “Cine Bar”: uma grande bola cor de rosa, a taça de prata suava, eu desmanchava as gotas geladas com os dedos antes de provar a primeira colherada, que descia acariciando a minha gula infantil…Sinto as sementes da fruta na ponta da língua.

Ou a maciez dos tecidos da Casa São Jorge, aonde ía com minha mãe. O dono, em voz suave, descrevia os modelos, apregoando as vantagens do fustão, do piquet ou da seda. Posso sentir o cheiro gostoso da fazenda nova sendo desenrolada aos poucos no balcão, festival de cores e estampas. Carregadas de pacotes, lá íamos nós descendo os paralelepípedos da rua onde morávamos, a Álvares Cabral, como se meu vestido novo já estivesse costurado na pele.

E o gosto da paçoquinha no recreio do Ginásio, onde tínhamos uma árvore só nossa – mirrada, poucos galhos – enlaçávamo-nos naquele tronco fino e dançávamos ao som das próprias risadas, contando os segredos do dia na língua do “P”. Éramos quatro ou cinco, nossos sapatos de cadarço cheios de pó…

Ah, sessão das seis de domingo no Cine São Luiz… Chegávamos às quatro- duas horas inteiras naquele corredor “enorme” da sala de espera, permanente busca de olhares, troca de sorrisos e promessas, várias idas ao toalette para verificar o cabelo (nem usávamos batom!), topete de menino com “glostora”. E bilhetinho “pedindo em namoro” levado por um mensageiro mais afoito. Vai-vem de ternos (da Ducal?) e vestidos engomados, comprando balas “Cheeta” de papel amarelo. Música de Billy Vaughn, hora de começar a sessão. Correria, atropelo para guardar o lugar ao lado. O filme não importava: Cantinflas, cow-boy, Tarzan, “Roqui Udison”, “Candelabro Italiano”. Muitas vêzes perdíamos o único beijo da fita esticando o pescoço para achar o “eleito” cinco fileiras atrás… Ou sentávamos sem nos mexer, olhando fixamente a tela e não vendo nada- uma ou outra palavra sussurrada- dizíamos tudo pelo aperto das mãos, os dedos suados entrelaçados. No “escurinho do cinema” inventávamos o romance. Na saída a pipoca quente estalava nos dentes. Voltávamos felizes prá casa, sonhando com o próximo domingo- simplicidade de mundo descomplicado.

Toda tarde era o passeio de carro, quando meu pai chegava, terno branco de linho. Sampaio Vidal, Av. Rio Branco, a preferida era a Nove de Julho onde tínhamos de “segurar a barriga” por causa da ladeira… Na volta, hora do Rádio: na sala a voz inconfundível do “Repórter Esso”, lá nos fundos nossa mãe preta ouvia Cauby Peixoto e a Rainha do Rádio, pelos chiados da Nacional do Rio. E a Rádio Clube de Marília: os meninos nos ofereciam “A volta do boêmio” com Nelson Gonçalves; preferíamos Elvis, “Besame mucho” com Ray Coniff ou “O homem do braço de ouro”…

Nos jardins do Ginásio meu pai esperava a namorada acabar de dar aulas.
Nos jardins do Ginásio minha mãe me via passear de carrinho com a babá, através das janelas das salas de aula.
Nos jardins e escadarias do Ginásio encontrei meus amigos e minha infância feliz.
Nos jardins do Ginásio, meu avô, que o construiu, com certeza imaginou todas essas histórias….

 

Liana Eppinghaus Barbalho Silva Teles

 


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